Pouco depois de sua intervenção no seminário, ele concedeu a seguinte entrevista ao BOLETIM, na qual abordou as diferenças entre o jornalismo praticado nas redes educativas e o das emissoras comerciais e manifestou esperança no casamento entre a TV _ inclusive a comercial _ e a produção alternativa.
Qual é o papel da TV na educação, principalmente a televisão pública?
A TV pública tem papel importante na educação complementar do homem. Ela não deve cumprir papel de escola, nem substituir a aula presencial, mas precisa preparar o homem para ter uma visão crítica da sociedade e exercer sua cidadania. A educação formal é um problema da escola, do Estado, da sociedade e não especificamente um problema da televisão, sobretudo da TV cultural. Esta exerce o papel de formação do homem em três vertentes: educação, cultura e informação. No nosso caso, a informação está associada ao que chamamos de jornalismo público. Mas o jornalismo é, por excelência, uma atividade pública...
Esse conceito, na verdade, atribui à informação o papel de compreensão dos acontecimentos e não o espetáculo da notícia. Nas televisões comerciais, o que interessa é o espetáculo, a emoção, e o tempo é muito rápido. Na TV pública, a notícia deve versar mais sobre as causas, necessita de mais tempo para ser assimilada, não importa a velocidade. Com relação à cultura, a TV pública deve privilegiar os produtos da identidade nacional, as produções artísticas que revelem a identidade e não as consagradas no mercado comercial da arte. Estas já estão na televisão privada. A educação na TV é para formação, permitindo, inclusive, a transformação de grandes cursos de cultura em programas de televisão. A TV pública tem o dever de oferecer algo mais para o cidadão, um conteúdo que vai além da formação curricular.De que forma a inclusão do ensino do cinema e do audiovisual nas escolas pode ajudar a melhorar a educação no Brasil?
Hoje, a segunda alfabetização é audiovisual. Zita Carvalhosa ( cineasta e produtora ) que desenvolve experiência muito interessante na periferia de São Paulo, defende a tese de que o jovem leva um tempo enorme para se alfabetizar, enquanto precisa de apenas três meses para mixar um produto audiovisual. Além disso, é uma linguagem inteiramente dominada pelos interesses do mercado. É muito importante que haja nas escolas nova visão do audiovisual. Por isso, conteúdos da área devem ser ensinados nas escolas e universidades. O que o senhor acha das produções alternativas audiovisuais?
Acabei de conhecer a fantástica experiência do Núcleo de Cidadania Jovem. Ela comprova que a base da sociedade está aprendendo a falar a nova linguagem do cinema e do vídeo. É evidente que esses produtos são muito mais espontâneos que os profissionais. Mas essas pessoas, para se tornarem atores e autores, precisam adquirir conhecimento técnico. O que pode ser feito para viabilizar a democratização da produção audiovisual no país, em termos de criação e acesso?
No mundo inteiro, há um progressivo monopólio da produção audiovisual. São cerca de dez grupos familiares tomando conta da televisão. Isso é um perigo, porque a padronização da televisão traz péssimas consequências àsociedade, tendo em vista a influência que o meio exerce nas pessoas. O brasileiro adora ver televisão, uma criança assiste a no mínimo quatro horas diárias de TV. Assim, não podemos deixar que a programação fique na mão de meia dúzia de pessoas. A democratização pode vir por meio de leis que inibam o monopólio, associadas às ações dos governos, que precisam dar força muito mais do que têm dado até agora à TV
pública. A televisão pública é a grande saída para a produção alternativa. Mas, sem apoio da sociedade e do governo, fica muito difícil desenvolvê-la.
Que espaço a TV Cultura de São Paulo vem reservando a produções alternativas?
Estamos iniciando um processo inovador. A televisão brasileira em geral, a comercial, produz tudo que está na sua programação e concede muito pouco espaço ao produtor independente. A TV Cultura foi a primeira a abrir as portas para o produtor independente. Hoje, temos veiculado documentários de altíssima qualidade técnica e jornalística. Agora, também estamos fazendo dramaturgia com a produção independente, como foi o caso de Galera (série adolescente que se passa numa escola pública).
Acho que essa é uma forte tendência na TV brasileira para os próximos anos. A Globo, por exemplo, está desenvolvendo uma experiência de produção independente, a série Cidade dos Homens . Isso pode abrir caminho para outras emissoras, o que será muito bom para a televisão e para a sociedade.

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